Após 10 meses, vírus Conficker ainda atormenta especialistas em segurança
Malware já infectou milhares de máquinas em mais de 200 países. Site criado por grupo de combate diz se PC está contaminado.
Ele ainda está lá. Como um navio fantasma, o Conficker – programa
de malware que invadiu a internet em novembro do ano passado –
conseguiu confundir os esforços dos peritos em segurança para
erradicá-lo e rastrear sua origem e propósito, expondo graves
fraquezas na infraestrutura digital do mundo.
O Conficker usa falhas do Windows para cooptar
máquinas e ligá-las a um computador virtual, capaz de ser
comandado remotamente por seus autores. Com mais de cinco
milhões desses zumbis atualmente sob seu controle – computadores
pessoais, de governos e empresas em mais de 200 países –, esse
obscuro computador tem um poder que perturba os maiores centros
de dados do mundo.
Alarmados pela rápida disseminação do programa
após sua estreia, em novembro, especialistas em segurança de
computadores da indústria, do mundo acadêmico e do governo
uniram forças numa colaboração altamente incomum. Eles
decodificaram o programa e desenvolveram antivírus que o
apagaram de milhões dos computadores. Mas a persistência e a
sofisticação do Conficker silenciaram a crença, de muitos
peritos, de que tais infecções globais em computadores eram
coisa do passado.
“Ele está usando as melhores práticas atuais para
se comunicar e proteger a si mesmo”, disse Rodney Joffe, diretor
do Conficker Working Group, sobre o programa malicioso. “Ainda
não encontramos o truque para retomar o controle das mãos do
malware de alguma forma”.
O grupo desenvolveu uma página na qual o internauta sabe se o seu
computador está infectado. Para isso, basta clicar neste página com seis imagens. Se todas
aparecerem corretamente, a máquina não está infectada.
Pesquisadores especulam que o computador pode ser
empregado para gerar enormes quantidades de spam; ele pode
roubar informações de logins e senhas ao capturar eventos em
computadores infectados; pode entregar avisos falsos de
antivírus, para fazer usuários desavisados acreditarem que seus
computadores estão infectados e persuadindo-os a pagar, pelo
cartão de crédito, para remover a infecção.

Se você puder ver todas as seis imagens, seu computador não está infectado. (Foto: Reprodução )
Existe também uma possibilidade diferente, que preocupa os
pesquisadores: a de que o programa não foi criado por um grupo
criminoso, mas sim por uma agência de inteligência, pelos
militares ou por algum outro país, para monitorar ou desabilitar
os computadores de algum inimigo. Redes de computadores
infectados, ou botnets, foram muito usadas como armas em
conflitos na Estônia, em 2007, na Geórgia, no ano passado, e em
ataques mais recentes contra agências governamentais da Coreia
do Sul e dos Estados Unidos. Alguns ataques recentes, que
debilitaram temporariamente o Twitter e o Facebook, poderiam ter
tons políticos.
Mesmo assim, para a maioria, o Conficker – há
várias teorias para seu nome – fez pouco mais que estender seu
alcance a mais e mais computadores. Embora tenha havido
especulações de que o computador seria ativado para fazer algo
mal-intencionado no dia 1º de abril, a data passou sem
incidentes, e alguns especialistas em segurança imaginam se o
programa teria sido abandonado.
O início
Os peritos possuem apenas minúsculas pistas sobre a localização
dos autores do programa. A primeira versão incluía programas que
paravam o malware se ele infectasse uma máquina com um teclado
do idioma ucraniano. Pode ter havido duas infecções iniciais –
em Buenos Aires, na Argentina, e em Kiev, na Ucrânia.
Onde quer que estejam os autores, especialistas
dizem que são claramente profissionais, usando a tecnologia mais
avançada disponível. O programa é protegido por mecanismos
internos de defesa, que o tornam difícil de apagar, e chega a
matar ou se esconder de programas criados para buscar botnets.
FBI
Um membro da equipe de segurança disse que o FBI já tem
suspeitos, mas está agindo lentamente pois precisa construir um
relacionamento com agências da lei “não-corruptas” nos países
onde estão localizados esses suspeitos.
Uma porta-voz do FBI em Washington não quis fazer
comentários, dizendo que a investigação do Conficker era um caso
em andamento.
As primeiras infecções, em 20 de novembro de 2008,
dispararam uma intensa batalha entre os autores ocultos e o
grupo voluntário, formado para enfrentá-los. O grupo,
inicialmente chamado de “Facção Conficker”, mudou seu nome
quando a Microsoft, Symantec e diversas outras empresas fizeram
objeções contra a conotação não-profissional.
Eventualmente, pesquisadores de universidades e
oficiais da lei uniram forças com peritos em computadores em
mais de duas dúzias de firmas de segurança de internet, software
e computadores.
O grupo venceu algumas batalhas, mas perdeu outras. Os autores do Conficker continuaram distribuindo novas versões do programa, mais intrincadas, chegando a utilizar códigos que haviam sido criados por acadêmicos apenas alguns meses antes. Em outra ocasião, um único deslize técnico do grupo permitiu que os autores do programa convertessem um número enorme das máquinas infectadas a um avançado esquema de comunicações par-a-par, que o grupo da indústria não conseguiu derrotar. Onde antes todos os computadores infectados teriam de telefonar a uma única fonte por instruções, os autores agora podiam usar qualquer computador infectado para instruir todos os outros.
Zoológico digital
No início de abril, Patrick Peterson, pesquisador da Cisco Systems em San Jose, na Califórnia, conseguiu alguma inteligência sobre os interesses dos autores. Ele estuda programas maliciosos mantendo uma série de computadores em quarentena que os capturam e observam – seu “zoológico digital”.
Ele descobriu que os autores do Conficker tinham começado a distribuir programas que enganavam usuários da internet a comprar antivírus falsos com seus cartões de crédito. “Nós apagamos as luzes no zoo num dia e voltamos no dia seguinte”, disse Peterson, apontando que na “jaula” reservada para o Conficker, a infecção havia sido ocasionada por um programa distribuindo um esquema de programas antivírus.
Foi o sinal mais recente de vida do programa, e seu silêncio disparou um debate entre especialistas em segurança de computadores.
Alguns pesquisadores acham que o Conficker é uma concha vazia, ou que os autores do programa foram afugentados na primavera. Outros argumentam que eles estão simplesmente passando o tempo.
Se o misterioso computador fosse reativado, ele não teria a habilidade de solução de problemas como a dos supercomputadores usados para projetar armas nucleares ou simular mudanças climáticas. Mas por ter comandado tantas máquinas, ele poderia atrair uma quantidade de poder computacional maior do que qualquer instalação de computadores administrada por governos ou pelo Google. Trata-se de um reflexo sombrio da “nuvem de computadores” varrendo a internet comercial, onde os dados são armazenados na internet ao invés de num computador pessoal.
O grupo da indústria continua tentando encontrar maneiras de matar o Conficker. Joffe, para citar apenas um, disse ainda não estar preparado para declarar vitória. Mas ele diz que o trabalho do grupo provou que o governo e a indústria privada podem cooperar na luta contra ameaças cibernéticas.
“Mesmo se perdermos contra o Conficker”, disse, “há coisas que aprendemos que irão nos beneficiar no futuro”.



